Histórico do Município de Martinópolis

Em meados do século XIX, sertanistas mineiros, capitaneados por José Teodoro de Souza e Francisco de Paula Moraes, chegaram às terras de São Paulo que medeiam entre as águas do "Peixe" e do "Paranapanema". Por seus picadeiros e agrimensores, palmilharam esse chão e se tornaram senhores de dois latifúndios distintos que se estendiam desde Campos Novos do Paranapanema até as barrancas do Rio Paraná.

Afrontando a Floresta inóspita e os Índios Coroados, seus primitivos habitantes, foram criando e aumentando áreas cultivadas. De Campos Novos e de Conceição do Monte Alegre cresciam lavouras de vegetação vigorosa, capazes de fazer os homens sonhar com futuro promissor.

A descoberta de terras férteis logo chegou ao conhecimento do Governo, que passou a se interessar pelas riquezas que a região encerrava em seus mistérios. Entre outras providências, deu início a construção da estrada boiadeira rumo ao Mato Grosso, passando a montante da Cachoeira do Rio Laranja Doce (onde, mais tarde, a CAIUÁ construiu a Usina Hidroelétrica). Foi porém o prolongamento dos trilhos da Estrada de Ferro Sorocabana, iniciado em 1910 a partir de Salto Grande, que realmente impulsionou o progresso. A estação de José Teodoro foi inaugurada em 05 de agosto de 1917.

Passageiros e mercadorias encheram o Trem de Ferro. A marcha para o Oeste começou a transformar a fisionomia do Sertão. A migração volumosa a forçar o fracionamento dos latifúndios. Contendas judiciais a se mesclar com lutas sangrentas, até que homens, organizados surgiram para capitanear a colonização, dentre esses homens, avulta a figura do Coronel João Gomes Martins, um fidalgo da Ilha da Madeira, que retalhou as terras de muitos dos municípios da região, especialmente, daquele a quem mais tarde, emprestaria o seu próprio nome.

Nos primeiros anos, de 1917 a 1924, a estação de José Teodoro, já construída de alvenaria no meio da mata virgem, tinha muito pouco movimento de pessoas e mercadorias., Apenas em 1924, quando o Coronel João Gomes Martins lançou o loteamento urbano de José Teodoro, paralelo aos trilhos, o povoado começou a surgir as primeiras casas comerciais e as primeiras residências. A fé dos colonos ergueu, em 1929, a pequena igreja de madeira.

Abençoado por Deus, o lugarejo, sede da Colonização Martins, foi se transformando em verdadeiro formigueiro humano, com levas que chegavam de trem para o Novo Eldorado. Vida intensa, tangível, vibrante de rumores, surgida e movida como as ondas do Oceano.

Em 20 de Dezembro de 1929, o povoado foi elevado a categoria de Distrito de Paz com o nome de Distrito de José Teodoro. Em 1937, quando o Trabalho e as paixões mais agitavam a vida e o progresso do povoado, seu fundador, no auge de esplandente vitalidade, faleceu na Capital. João Gomes Martins Filho não permitiu que a bandeira da colonização caísse por terra, Tomou-a das mãos do pai e a levou avante, como em corrida de revezamento.

Em 29 de Janeiro de 1939, o Distrito de José Teodoro foi elevado a categoria de Município com o nome de Martinópolis e em 13 de Junho de 1945, com as maiores comemorações já verificadas em sua história, a terra dos Martins instalou solenemente a Comarca de Martinópolis.

Na década de 40, o Município se estendia por uma área territorial de 4.000 Km2, limitando-se com Regente Feijó, Presidente Prudente, Valparaizo, Guararapes, Tupã e Rancharia. Sua população já era de 25.000 habitantes, dos quais, 18.000 radicados nas Glebas da colonização Martins. No final dessa década e limiar do anos 50, Município de Martinópolis, tornou-se conhecida como o Rei do Algodão, após produzir 2.200.000 arrobas da malvácea em um única safra. Na década de 50, sua população chegou a 37.000 habitantes, sendo 29.000 na Zona Rural.

Nas décadas de 60,70 e 80, o êxodo rural, provocado pelo desestímulo à agricultura e pela industrialização desordenada, concentrada nos grandes centros urbanos, atingiu a economia de Martinópolis e com ela a sua população entrou em declínio.

Hoje, aos 69 anos de vida municipalista, o Município de Martinópolis, liderado pelo Prefeito Antonio Leal Cordeiro, homem originário da terra, luta pela sua recuperação econômica acreditando nas Associações de Produtores Rurais alavancadas por incentivos públicos, onde os tratores e implementos agrícolas, fornecidos pela Prefeitura e administrados pelos próprios rurícolas deverão funcionar como o elemento catalisador na busca de futuro melhor para um povo, cuja vocação principal é a faina na terra. As atividades rurícolas, ainda hoje, se constituem na força propulsora da economia de Martinópolis, basicamente, sustentada pela Agricultura e pela Pecuária, somando-se a exploração do potencial turístico, concentrado na Represa Laranja Doce. Há, também, instalações recentes de uma usina de açúcar que iniciará a produção industrial em 2008 e a instalação de várias granjas de frango de corte, com criação de mais de 500.000 aves/mês.

Martinópolis, no censo do IBGE de 1996, possuía 21.361 habitantes: 17.352 nas áreas urbanas e 4.009 na zona rural. No último censo, realizado em 2007, a população atingiu 23.983 habitantes. Seu território é atualmente de 1.256,4 Km2, limitando-se ao Norte com Mariápolis, Pracinha, Parapuã e Sagres, ao Sul com Nantes, ao leste com Rancharia e ao Oeste com Caiabu, Indiana, Taciba e Regente-Feijó.

Localizada a 35 km de Presidente Prudente e a 494 km da capital, visitada por moradores de várias partes do país,

devido a parentes de seus habitantes que estão espalhados, e a beleza de sua represa, a Laranja Doce, a 14 km do centro, a cidade de Martinópolis um dia já se chamou José Teodoro. Foi o primeiro nome do povoado e do distrito. Ao se expandir, a estrada de Ferro Sorocabana decidiu homenagear o desbravador, colocando seu nome numa das estações, cujo trilho segue em direção às barrancas do rio Paraná. Mas quando foi elevado a município, o nome foi alterado para Martinópolis, em 30 de novembro de 1938, pelo decreto nº 9775. A medida visou homenagear o coronel João Gomes Martins, considerado o principal colonizador. Já o decreto-lei nº 14.334, de 30 de novembro de 1944, elevou-o a foros da comarca, instalada solenemente em 13 de junho de 1945, com jurisdição inicial nos municípios de Indiana e Regente Feijó. O então povoado de José Teodoro – hoje Martinópolis – teve sua origem à margem da Estrada de Ferro Sorocabana. Era ali que moravam os trabalhadores que faziam a manutenção da estrada de ferro, fator determinante na formação do povoado. Estas estações da estrada de ferro serviam como ponto de abastecimento de água das locomotivas.

A influência do coronel João Gomes Martins foi uma peça principal para o desenvolvimento do povoado. Em 1924 os moradores reivindicaram a elevação à categoria de distrito de paz, e isso viria com a Lei nº 2.492, de 20 de dezembro de 1929.

Como as terras eram férteis e a produtividade correspondia com os lavradores, o distrito também foi se ampliando economicamente.

Martinópolis localiza-se no traçado da Estrada de Ferro Sorocabana, na zona fisiográfica pioneira e as coordenadas geográficas de sua sede são: 22º 10’ latitude sul e 51º 11’ longitude W.Gr. Dista 494 km da capital do Estado, em linha reta.

José Teodoro

Para falar do nascimento de Martinópolis é preciso falar um pouco mais do desbravador José Teodoro de Souza. Ele era natural de Pouso Alegre (MG) e proprietário de todas as terras do sudoeste brasileiro. Era um homem considerado inteligente, valente, audacioso, porém, analfabeto. Tanto que eram seus procuradores quem assinavam por ele seus negócios de terra, quase sempre com segunda intenções.

O pesquisador José Carlos Daltozo, no livro "Martinópolis, sua história e sua gente" destaca que a história do desbravamento tem início com a chegada do mineiro José Teodoro de Souza. No século XIX ele aportou atrás de riqueza e poder às margens do rio Turvo. Além de São Pedro do Turvo, também fundou Campos Novos do Paranapanema (atualmente Campos Novos Paulista) e Conceição de Monte Alegre (atual distrito de Paraguaçu Paulista).

Segundo o pesquisador José Ferrari Leite, que integrava o quadro de docentes da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Unesp, em seu livro "A Alta Sorocabana e o Espaço Polarizado de Presidente Prudente", José Teodoro morreu em 24 de julho de 1875, em Campos Novos, "e já seu império esfacelava-se com grileiros em vários pontos e muitos alqueires doados a amigos que lhe auxiliaram na empreitada de abrir o sertão. A parte que restava, ainda de grandes proporções, foi distribuída a seus herdeiros".

Daltozo acentua ainda que Martinópolis e as demais cidades da Alta Sorocabana carregam em sua certidão de nascimento a paternidade do café e a maternidade da ferrovia. No século XIX e nas três primeiras décadas do século XX o café era a maior atividade econômica do Estado de São Paulo.

A Estrada de Ferro Sorocabana foi fundada por particulares em 1871. No começo, visava atender produtores e comerciantes de Sorocaba. Mas sua expansão foi inevitável em ambas as direções, tanto para o lado de Porto de Santos, centro nevrálgico da exportação, como para o interior, chegando em Presidente Prudente em 1919 e no ponto final, Presidente Epitácio, atualmente Estância Turística, em 1º de maio de 1922.

A colonização

Nascido a 18 de dezembro de 1877, na Ilha da Madeira, em Portugal, João Gomes Martins veio para o Brasil com a família quando contava com apenas 10 anos de idade. Pequeno, foi trabalhar no campo numa fazenda de Porto Ferreira. A família muda-se mais tarde para Taiúva (SP), e lá João casa-se com uma prima, a senhora Carolina de Freitas. Depois mudam-se para a capital, onde estruturam comércio por atacado e importação e exportação.

Os anos se passaram e João Gomes resolve fazer outra coisa. Decide se dedicar a colonizar terras, e funda a Colonização Martins, com sede em São Paulo. Seu interesse se direciona para a região Alta Sorocabana, atraído pelo preço acessível das terras, que também podiam ser adquiridas a prazo, e pela abertura do caminho pela ferrovia e a construção das estações.

João Gomes começa a comprar terras. Dá uma pequena entrada e parcela o restante. Depois inicia a venda de lotes, renda que usava para saldar as parcelas da compra. Entre as fazendas adquiridas por ele, como a

Pitangueiras, localizada na região onde estava a estação de Sapezal, e posteriormente, as propriedades Pedras e Barreiro, Ribeirão dos Índios, Misto, Ribeirão Grande, Cristal e a Boa Ventura – esta daria origem ao município de Martinópolis. Em seu livro, Daltozo relata que João Gomes Martins chegou a enfrentar batalhas judiciais devido a delimitações de terras, já que as escrituras da época se traduziam em pouca precisão no que tange aos verdadeiros limites. Essas escrituras muitas vezes simplesmente assinalavam "cabeceiras do ribeirão tal", ou "espigão do córrego tal", pendengas que eram decididas na justiça, e sempre vencidas por João Gomes Martins, por intermédio de seu advogado Enéas Cezar Ferreira.

Quando a Estrada de Ferro Sorocabana chegou, João Gomes Martins já encontrava-se na região. Foi ele, aliás, quem adquiriu a passagem número um do povoado José Teodoro, mas não chegou a usá-la, pois queria guardá-la como recordação.

Nessa época, segundo ainda José Carlos Daltozo, Martins já encontra-se em negociações para adquirir as terras daquele que viria a se tornar o Núcleo Colonial Boa Ventura. Em 1923, trouxe os primeiros visitantes procedentes de Santa Adélia, região da Araraquarense, para conhecer seu empreendimento. Vieram José Valentim, Pedro Quaranta, João Saram, Ernesto Contini e Antonio Sartori.

Loteamento da cidade

A aquisição da fazenda se tornaria realidade em 17 de novembro de 1924, quando João Gomes contratou engenheiro e agrimensor para projetar os loteamentos urbanos e rurais.

O povoado de José Teodoro ganha arruamento. Possuía 20 alqueires de perímetro urbano e sessenta quadras de 80 por 80 metros, cortadas por 15 ruas e três avenidas. Cada quadra possuía oito lotes, sendo quatro lotes de esquina, medindo 30 x 30 metros e dois lotes com 20 metros de frente por 40 de fundo, além de dois com 20 de frente e 30 de fundo.

João Gomes Martins, o coronel

João Gomes Martins e Carolina de Freitas Martins tiveram nove filhos, sendo três homens e seis mulheres: João Gomes Martins Filho, Bibiana, Paula, Iracema, Eduardo, Guiomar, Arhur, Nair e Cândida. A esposa, Carolina, faleceu em São Paulo em 1934.

Não se tem registro de quando João Gomes Martins recebeu a denominação de coronel. Sabe-se que o termo "coronel’’ surgiu quando foi criada a Guarda Nacional, em 1831, substituindo as milícias e ordenanças do período colonial. "Eram nomeados coronéis todos os grandes proprietários rurais, com prestígio social e econômico, além de outros que prestassem favores ao governo federal, ou que fossem influentes em uma cidade ou região. Essa forma de tratamento e de nomeação de líderes perdurou por quase 70 anos, até a proclamação da República em 1889’’, escreveu o pesquisador Daltozo. Porém, essa forma de tratamento ficou tão arraigada na mentalidade da população que por muitas décadas continuaram sendo tratados de ‘coronéis’ todos aqueles que detinham poderes político e econômico e eram influentes em uma comunidade.

De acordo ainda com José Carlos Daltozo, a família Martins, que residia na capital paulista, na rua Oscar Porto, tinha o hábito de visitar Martinópolis, onde mantinham negócios. Quando isso ocorria, ficava hospedada em fazenda de sua propriedade, a Capão Bonito.

Bela moradia

Por volta dos anos 40 a família comprou uma casa na cidade, que passou a ser chamada de "fazendinha’, devido à exuberância de sua arborização e ao grande pomar de laranjeiras. No local ainda reside Guiomar, uma das filhas de João Gomes Martins.

João Gomes pertencia ao Partido Republicano Paulista (PRP) mas não chegou a ser deputado. No final dos anos 30, quando estava com 59 anos de idade, adoentado, o coronel João Gomes Martins retornou à Europa para uma visita. Antes, porém mandou seu filho doar um terreno nas cercanias da cidade para a instalação de uma máquina de benefício de algodão da Anderson Clayton.

Assume o controle

Com a morte do coronel em 10 de setembro de 1937, João Gomes Martins Filho assume a direção da Colonizadora Martins. João Gomes Martins Filho, que nascera em São Paulo em 1908 e se formou em Direito em 1933 pela Faculdade do Largo de São Francisco, ficou responsável com suas irmãs de doar imóveis em Martinópolis para a construção de obras públicas, entre eles, o estádio do Martins Esporte Clube, da Santa Casa de Misericórdia e do primeiro grupo escolar, a "Fazendinha’’, e onde atualmente funciona o Colégio Objetivo.

Gosto pela política

Ao contrário do pai, João Martins Filho chegou a ser eleito deputado à Assembléia Constituinte de 1946. Em 1950 candidatou-se a vice-governador na chapa que tinha como candidato a governador Prestes Maia, pela União Democrática Nacional (UDN), mas não foi eleito. Foi ainda juiz federal em São Paulo e se aposentou no final dos anos 80. Morreu na capital em 1992.

Construção civil – as primeiras construções

Consta no livro de José Carlos Daltozo, "Martinópolis, sua história e sua gente" que o coronel João Gomes Martins separou 20 alqueires nos arredores da estação ferroviária com o objetivo de formar um povoado que desse suporte às vendas das propriedades agrícolas. Por isso trouxe auxiliares da Colonização Martins como os engenheiros Mário Cabral e Alberto Amaral, este também agrimensor; o desenhista Henrique Amaro Pinto Correia e os guarda-livros Bario Raymundo Cirne e Manoel Júlio Sobrinho.

De acordo ainda com Daltozo, o primeiro comerciante que se instalou no povoado de José Teodoro foi Antonio Joaquim Senteio, primo do colonizador. Ele, Antonio Rodrigues Parente e João Gomes Martins montaram um armazém de secos e molhados em uma construção rústica de madeira, que localizava-se em frente à estação ferroviária, ao lado do Hotel Colonial.

Primeira construção

A primeira construção de alvenaria do povoado foi o Hotel Colonial, obra da Colonização Martins, em 1925. Visava atender visitantes que queriam conhecer as propriedades colocadas à venda. Mais tarde, denominado de Hotel Martinópolis, sediou muitas reuniões sociais, festas de casamentos das pessoas abastadas, confraternizações, almoços e jantares políticos. O prédio foi demolido no final dos anos 70 e nenhum movimento impediu que botasse fim num prédio que representava parte da história da cidade. No mesmo local foi construído prédio da agência da Nossa Caixa Nosso Banco.

Interesse em povoar a cidade

Para incentivar o desenvolvimento do povoado, João Gomes Martins concedia um lote na cidade a quem adquirisse lotes rurais.

"E assim o vilarejo de José Teodoro ganhou impulso e algumas indústrias como olarias e serrarias. Em um levantamento realizado em 15 de novembro de 1927, assinado por Henrique Corrêa, existiam no povoado 1.395 habitantes, entre as zonas rural e urbana, e a economia era movida por três olarias, duas serrarias, um moinho de fubá, quatro casas de negócios, uma padaria, uma garagem, 13 automóveis e caminhões, uma carpintaria, uma oficina mecânica, um hotel e um ferreiro", escreveu Daltozo.